ser negra e  ser negro

Uma mudança decisiva ocorreu no imaginário esportivo no momento em que a população negra passou a fazer do esporte um espaço privilegiado de expressão da negritude e da afirmação do seu pertencimento ao mundo.

Mesmo sendo alvo de uma trama racista secular e estrutural, esse movimento de inserção, pioneirismos e reivindicações não só enriqueceu o esporte com um amplo repertório gestual, como foi o principal responsável pela sua democratização, uma vez que submeteu princípios de igualdade, reconhecimento e democracia racial a um duro teste de realidade.

Uma mudança decisiva ocorreu no imaginário esportivo no momento em que a população negra passou a fazer da identidade atlética espaço privilegiado de expressão da negritude e afirmação do seu pertencimento ao mundo. ”

Algumas dessas trajetórias atravessaram períodos históricos em que a presença negra na sociedade só podia ser tolerada enquanto paisagem provisória de um Brasil que se queria branco. Outras, contam histórias de enfrentamento direto ao racismo em associações, clubes e confederações, num período marcado por forte repressão militar. Por isso mesmo é que estas formas de ser negra e ser negro no esporte escapam ou são sumariamente subtraídas dos registros, como sacrifícios em nome de uma história do esporte “livre de conflitos”.

Em oposição a esta política do esquecimento e redução do fenômeno esportivo aos recordes, vitórias e derrotas, esse eixo da diversidade busca abordar as implicações da presença afro-brasileira no esporte, dando especial ênfase às imagens do pioneirismo, da rebeldia e resistência às formas de opressão racial.

Assim, esse protagonismo esportivo negro não deixa de ser uma resposta, um contundente não! às formas de desumanização de uma estrutura social econômica, jurídica e politicamente organizada pelo racismo.

Neilton Ferreira JúniorDoutorando pela EEFE USP. Membro da Academia Olímpica Brasileira e do GEO USP
Foto: Cezar Loureiro

“Quanto a nós, negros, como podemos atingir uma consciência efetiva de nós mesmos enquanto descendentes de africanos se permanecemos prisioneiros, "cativos de uma linguagem racista?”

Lélia Gonzalez - 1988
@leliagonzalezvive

Alfredo Gomes

atletismo

A questão da Olimpíada eu acho muito mais simbólica, até porque Alfredo Gomes foi o porta-bandeira da delegação. Mas o Brasil não leva a sério a própria história. Existe um certo descaso, ainda mais em relação aos atletas negros"

Antonio Carlos de Paula - neto de Alfredo Gomes

Neto de escravizados, o corredor Alfredo Gomes foi o primeiro atleta negro brasileiro a disputar uma Olimpíada. Naqueles Jogos de 1924, em Paris, carregou a bandeira verde-amarela na cerimônia de abertura. No ano seguinte, cravaria mais uma vez seu nome na história, ao vencer a primeira Corrida de São Silvestre. A namorada, quando engravidou, terminou o relacionamento sem lhe dizer nada - não queria casar com um homem negro. Preferiu que a criança crescesse achando que o pai havia morrido. Os olhares da discriminação ele percebia no esporte e no trabalho de técnico e inspetor de telefonia, que desmpenhou por 50 anos. Através do esporte, fez-se herói preto, em um país que se queria branco.

Diogo Silva

taekwondo

Hoje, o trabalho que exerço é justamente uma continuação do meu ato de 2004"

Diogo Silva

Ex-atleta Olímpico e uns dos maiores nomes do taekwondo brasileiro, Diogo Silva fez do esporte uma forma de se manifestar. O menino negro, de família humilde, criado num bairro operário do litoral paulista, teve a vida transformada pela arte marcial. Hoje, trabalha com políticas públicas para que esta mudança chegue para outros como ele. Medalhista de ouro nos Jogos Pan-Americanos Rio 2007, usa sua projeção para defender os direitos dos atletas e promover a luta antirracista. Nas Olimpíadas 2004, contra a falta de incentivo ao esporte, o lutador ergueu a mão direita usando uma luva preta, repetindo o gesto dos panteras negras. Escolheu ser uma voz incômoda. Sabe que rebeldia não é sobre quebrar coisas, mas mexer nas estruturas para construir o novo.

Irenice Rodrigues

atletismo

Quando Irenice se movimentava, toda a estrutura do esporte se movimentava com ela. ”

Neilton Ferreira Júnior

Correr para ser mulher. Irenice Maria Rodrigues. Mulher negra, especialista nas provas de 400 e 800 metros rasos e politicamente engajada, fez do atletismo dos anos 1960 , uma plataforma para denunciar o descaso dos dirigentes esportivos para com a modalidade e seus colegas de prática.

Tinha pressa para ser atleta, estudante, cidadã, ser de corpo inteiro.

Quando Irenice se movimentava, toda a estrutura do esporte se movimentava com ela. ”

Neilton Ferreira Júnior

Liderou protesto contra o racismo que sofreu no Clube Fluminense, quando foi impedida de entrar no Fluminense Football Club devido a cor de sua pele. Às vésperas dos Jogos Pan Americanos de Winnipeg, em 1967, articularia ainda uma greve nacional de atletas do atletismo contra o Comitê Olímpico Brasileiro, denunciando a precariedade em que se encontravam os representantes negros da modalidade.

Irenice foi aos Jogos Olímpicos do México em 1968, em plena ditadura militar às vésperas do AI-5. Ao mesmo tempo em que seus técnicos a tinham como uma das favoritas ao pódio devido à grande qualidade técnica, velocidade e resistência que apresentava como atleta, Irenice era considerada pelos militares/dirigentes esportivos persona non grata por sua intransigente posição antirracista e crítica ao sistema esportivo.

Irenice foi ao México, mas não pôde competir. Denunciada pela colega e acusada de “indisciplina” pelos dirigentes, foi obrigada a voltar ao Brasil sem ter a chance de pôr à prova suas habilidades e, numa eventual subida ao pódio, marcar mais uma vez sua posição contra o racismo e o autoritarismo.

A proliferação de matérias e artigos sobre a biografia de Irenice nos sugere, tal como um dia escreveu Nietzsche, que algumas pessoas nascem postumamente, tornando-se elas mesmas um destino. Parafraseando Angela Davis, quando Irenice se movimentava, toda a estrutura do esporte se movimentava com ela.

Milton Castro

atletismo

Ser atleta e ser campeão, pelo menos na condição em que eu e meus amigos convivemos, é sobretudo se sobrepor ao sistema. Pois além de encarar o Primeiro Mundo de igual pra igual, numa situação desigual, você tem que encarar as desigualdades que te acompanham.”

Milton Castro

É do Jacarezinho, favela mais negra do Rio de Janeiro e antigo quilombo urbano, que veio Milton Costa, um dos precursores da tradição brasileira de velocistas. O incentivo de um professor de educação física mudou o destino do menino preto e periférico. O atletismo lhe proporcionou muito - de uma bolsa de estudos em escola particular, até um bronze nos Jogos Pan-Americanos de 1979 e a extraordinária participação nas Olimpíadas de Moscou. Troféus e medalhas não o afastaram da experiência do racismo e da dificuldade financeira. Consciente de sua identidade, inscrita na pele e na origem, virou professor. Quer ele próprio transformar realidades.

Raissa Rocha

atletismo

Para acessar a transcrição, clique aqui.

Eu vi o preconceito, o racismo. A pessoa não precisa falar, só um olhar basta.”

Raissa Rocha

Houve um tempo em que Raissa Rocha se olhava no espelho e via um monstro. A menina preta, que nasceu com má formação nas pernas, sofreu bullying e preconceito. Detestava educação física, mas, aos 11 anos, incentivada pela mãe, começou a fazer ginástica, um motivo para sair de casa. Depois migrou para o atletismo. O esporte descortinou um universo de inclusão e autoaceitação. Hoje, Raíssa é recordista das Américas em lançamento de dardo. Mais que isso: “sou mulher, negra, cacheada, paratleta e guerreira”, resume. Com milhares de seguidores nas redes sociais, empoderada e combativa, quer ser inspiração. Afinal, como ela diz: “nada mais forte que uma mulher que se reconstruiu”.

Roseane Santos

atletismo

"Por quê? A gente já sofre preconceito por ser negra, pobre, mulher, Agora deficiente… é muita coisa. Por que tanta coisa em cima de uma pessoa só? Era muito peso pra carregar. ”

Roseane Santos

Roseane Ferreira tinha 18 anos e era empregada doméstica, quando foi atropelada e teve a perna amputada. “A gente já sofre preconceito por ser negro, pobre, mulher, agora deficiente... Era muito peso pra carregar”. O esporte descortinou um novo mundo, que aliviou esse fardo. Especialista em arremessos de dardo, disco e peso, Rosinha é dona de dois recordes mundiais e duas medalhas paralímpicas. Mirou certeira no sonho até então distante de viajar e comprar uma casa para a mãe. Alcançou, não sem dificuldades. Competiu em meio a um tratamento de câncer; precisou de uma vaquinha para se preparar para os Jogos de 2016. Nunca perdeu o bom-humor. A adversidade, ela transforma em sabedoria.