ser mulher

No decorrer da história foi preciso enfrentar o poder patriarcal para que as mulheres alcançassem a emancipação. Assumiram papel de destaque tanto no processo de abolição da escravidão, como na luta por direitos civis, pela educação e pelo trabalho. E não se restringiu a isso. A luta por direitos políticos, pela equidade, pela liberdade e pela vida também estava na pauta de reinvindicações.

Mulheres são reconhecidas na diversidade e na resistência. Nenhum único conceito é capaz de representar a totalidade do que elas significam. A interseccionalidade é que dá sentido a todos os variados papéis da existência. Afirmou Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”.

Resistir é manter viva a memória de todas aquelas que foram oprimidas e silenciadas. Nenhum avanço é possível sem o respeito à diferença e à diversidade.”

No esporte, assim como na sociedade, a conquista de espaço não foi concessão. Foi luta. Das pioneiras do começo do século às novas gerações há ainda muitos caminhos a trilhar. Por que as mulheres atletas devem se provar mulheres? Tema que atravessou o século passado avança pelo atual impedindo que aquelas que fogem aos padrões determinados sejam excluídas de um fenômeno que nasceu para congregar os povos e promover a igualdade.

Hoje somos, porque elas foram. Para que o esporte seja plural e se alcance a equidade é preciso resistir e avançar na luta por direitos. Resistir é manter viva a memória de todas aquelas que foram oprimidas e silenciadas. Nenhum avanço é possível sem o respeito à diferença e à diversidade.

Ellen Moraes ScherrerEspecialista em Pedagogia do Esporte e Psicologia do Esporte, idealizadora do Feminismo Negro no Esporte
Arte: Ellen Sherrer
Mulheres não são um grupo homogêneo. Diferem em cultura, etnia, orientação sexual, idade, credo e cor. Quando a diferença vira desigualdade, o remédio é política pública.
Fonte: Diversidade das Mulheres — Português (Brasil) (www.gov.br)

Ádria Santos

atletismo

O pouco que via até os 13, por uma deficiência ocular foi suficiente para entender que a vida era uma corrida. E, quando tudo se apagou guardou para si o dom e a ousadia de que ninguém seria mais veloz que ela."

Luciane Maria Micheletti Tonon

Em 11 de Agosto de 1974 nascia em Nanuque, interior de Minas Gerais, Ádria Santos. Caçula entre nove, mostrava todos os dias seu maior talento, correr.

O pouco que via até os 13, por uma deficiência ocular foi suficiente para entender que a vida era uma corrida. E, quando tudo se apagou guardou para si o dom e a ousadia de que ninguém seria mais veloz que ela. Tinha pressa. Foi a mais jovem atleta brasileira a subir duas vezes num pódio, com apenas 14.

Adiantou o dom da maternidade aos 15, com a pequena Bárbara, que levou ao pódio em Sydney, 2000. Um sopro de esperança anunciando ao mundo que lugar de mulher é onde ela quiser. Logo, ganhou o apelido de Filha do vento. Guiada pela liberdade e acompanhada por alguns olhos. Perna pra quem tem, porque guiá-la não é fácil. Foram 06 edições dos Jogos Paralímpicos e 13 conquistas de medalhas. Foram 76 medalhas em campeonatos mundiais e 583 nacionais.

Os bons ventos a guiaram numa carreira completa nas pistas e continuam a levá-la bem longe. Passou a se divertir com o ciclismo, formou-se em Educação Física e hoje é uma referência no esporte paralímpico.

Luciane Maria Micheletti Tonon

Benedicta Oliveira

atletismo

E eu me pergunto: como podemos nos aprimorar tecnicamente se todas as portas se fecham para nós? E quando digo nós, falo das técnicas (mulheres) e ex atletas de nosso país. Seria um problema político?"

Benedicta Oliveira

Nos Jogos Olímpicos de Tóquio, neste 2021, apenas 10% de todos os treinadores eram mulheres. Há 50 anos, Benedicta Souza entrava para a história do esporte no Brasil como a primeira mulher a treinar a seleção de atletismo. Rompia barreiras, ao se apropriar de um espaço ainda tão dominado pelos homens. Com uma carreira exitosa, havia sido campeã paulista, brasileira e sul-americana. Disputou as Olimpíadas de Londres, nos 100m rasos e revezamento 4x100, e encerrou a vida de atleta em 1956, para dedicar-se à área técnica. Pioneira, formada em Educação Física e Comunicação, quebrou paradigmas e preconceitos, com seu exemplo de resistência e determinação, abrindo caminho para aquelas que seguem na luta por igualdade.

Camille Rodrigues

natação

Eu sempre fui uma mulher que quis ser independente, quis ter a minha profissão, quis ter o meu carro, a minha casa..., certas atitudes nossas inspiram outras pessoas.

Camille Rodrigues

Camille Rodrigues é nadadora, bailarina e digital influencer. Coleciona medalhas paralímpicas nas piscinas do Brasil e do mundo, e milhares de fãs nas redes sociais. Por causa de uma má formação congênita, teve a perna amputada ainda criança. A prótese ela exibe com orgulho, mostrando a todos que lugar de mulher com deficiência também é onde ela quiser. Sua atuação dentro e fora do desporto é símbolo de representatividade e quebra de paradigmas. Medalhista de ouro nos Jogos Parapan-Americanos de Toronto, ela já se apresentou com a cantora Anitta e na abertura do Fantástico. A dança a ajudou a gostar do próprio corpo e, através dela, Camille segue empoderando outras pessoas por aí.

Jackie Silva

voleibol

Com esse crescimento e percepção do mundo, eu fui começando a me questionar sobre algumas coisas e aí comecei a bater de frente com as injustiças”

Jackie Silva

Considerada a melhor jogadora do mundo em 1995, Jackie Silva foi afastada três vezes da seleção brasileira de vôlei, por indisciplina. Os títulos que conquistou em mundiais e olimpíadas, vieram acompanhados de outro – o de rebelde. Foi assim que a chamaram por batalhar para que mulheres tivessem os mesmos direitos de homens no esporte. A atleta, que se recusou a vestir o uniforme da seleção com o nome do patrocinador, sem receber nada por isso, foi pioneira na luta pela igualdade salarial. Afastada das quadras, se reencontrou no vôlei de praia. E entrou para a história por conquistar a primeira medalha feminina de ouro do Brasil nos Jogos Olímpicos.

Joanna Maranhão

natação

Para acessar a transcrição, clique aqui.

Você não supera algo que de fato aconteceu, você aprende a conviver.”

Joanna Maranhão

Joanna Maranhão é a maior recordista brasileira da história da natação. Quem a viu se tornar a quinta mulher mais rápida do mundo nos 400 metros medley, nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004, não imaginava que ela lutava contra um trauma. Aos 9 anos, havia sido molestada por um treinador. A coragem para fazer a denúncia só veio em 2008 e inspirou a criação de uma lei contra o abuso de crianças e adolescentes, que leva seu nome. A partir daí, a atleta ressignificou sua história. Depois de participar de quatro Jogos Olímpicos, Joanna hoje faz mestrado na Bélgica, coordena uma ONG de combate à pedofilia, é mãe e ativista pelas causas da democracia no esporte. Afinal, “quando você quebra o silêncio, não se cala nunca mais”.

Yane Marques

pentatlo moderno

Eu fiz um esporte que é essencialmente masculino. O Pentatlo Moderno foi praticado apenas por homens até os Jogos Olímpicos de Sydney em 2000, quando as mulheres tiveram a oportunidade de fazer essa modalidade. ”

Yane Marques

Natural do Sertão de Pernambuco, Yane Marques firmou-se campeã, numa modalidade tradicionalmente masculina e de influência militar. Desde 1912, o Pentatlo Moderno integra os Jogos Olímpicos, mas apenas no ano 2000 a participação feminina foi permitida. Nas Olimpíadas de Londres, Yane foi lá e trouxe para o Brasil a primeira e única medalha do país nesse esporte, uma conquista que nenhum homem conseguiu. Eleita Presidente da Comissão de Atletas do COB em 2021, Yane é gestora na Secretaria Executiva de Esportes no Recife. Num mundo ainda tão desigual, abre brechas com sua própria trajetória e conquista território para todas . A existência de uma mulher em papel de liderança será sempre política.