ser migrante

O lugar de nascimento é uma marca que o ser humano carrega por toda a vida. As origens são um componente fundamental no processo de formação identitária. Antes mesmo de nascer, a história de cada indivíduo já está parcialmente escrita pelos seus ancestrais. O desenvolvimento de cada trajetória é singular, com caminhos forjados por conexões e rupturas.

Migrações podem ser voluntárias ou forçadas. Os laços entre origem e destino não são compreendidos apenas pelo ponto de chegada. É preciso enxergar os caminhos percorridos. Trajetórias trazem muito mais significados que apenas olhar para os pontos finais.

Os laços entre origem e destino não são compreendidos apenas pelo ponto de chegada. Trajetórias trazem muito mais significados que apenas olhar para os pontos finais.”

Em um mundo transnacional, as percepções de tempo e espaço são um conceito relativo, que só pode ser compreendido ao lado de fatores sociais. Para alguns, mover-se é algo fluído, natural e as fronteiras parecem não existir. Para outros, os limites territoriais são barreiras intransponíveis.

O esporte, como fenômeno, não fica alheio a isso. Conhecer trajetórias de atletas migrantes (ou migrantes atletas) é uma forma de conhecer mais sobre o período e local em que vivemos.

William Douglas de Almeida Jornalista. Doutor pela EEFE USP
Quem sabe, em vez de falar sobre identidades, herdadas ou adquiridas, estaria mais próximo da realidade do mundo globalizado falar de identificação, uma atividade que nunca termina, sempre incompleta, na qual todos nós, por necessidade ou escolha, estamos engajados.

Zygmunt Bauman

Burkhard Cordes

vela

Após o fim da Guerra, a empresa na Alemanha perguntou ao meu pai se ele queria voltar pra Alemanha. Meu irmão é carioca, ele nasceu lá no Rio em 1941, e a gente já estava estudando aqui. A gente não tinha interesse, nem conhecia a Alemanha. Voltar pra onde?"

Burkhard Cordes

1939. Um navio partiu da Alemanha rumo ao Rio de Janeiro. Terminou a viagem na Bahia, pois foi recrutado pelo país de origem, onde seria usado na Segunda Guerra. Entre os passageiros estava um bebê de seis meses: Burkhard Cordes.

Em tempos de Guerra, não era fácil ao pai, Otto Cordes, conseguir emprego. Engenheiro eletricista na Alemanha, ele vendeu bonecos de madeira e traduziu manuais técnicos, até receber um convite para trabalhar em uma indústria. Burkhard tinha 14 anos quando o emprego do pai levou a família para São Paulo.

O local de trabalho era São Miguel Paulista, na zona Leste. O contato com outros alemães fez Burkhard cruzar a cidade, frequentando o Yacht Club Santo Amaro, na zona Sul, às margens da Guarapiranga.

Nascer na Alemanha abriu as portas do clube, mas fechou outras. Estudante de engenharia, Burkhard organizou uma excursão para os Estados Unidos pela universidade. No momento final, descobriu que as bolsas de estudos eram apenas para brasileiros ou naturalizados. Decidiu “Então vai ser naturalizado”.

Um novo brasileiro, liberado para o intercâmbio e para disputar competições no Brasil e pelo Brasil.
O principal parceiro era Reinaldo Conrad, juntos, ganharam a prata nos Jogos Pan Americanos em 1967. Um ano depois veio a medalha de bronze olímpica. O primeiro pódio da vela brasileira. A dupla também foi campeã dos Jogos Pan Americanos em 1975.

Em 2021, aposentado, ele vive em São Paulo e é sócio do clube Pinheiros, que nasceu como Germânia. Em casa, Burkhard guarda três medalhas olímpicas. O bronze conquistado em 1968 está ao lado do ouro e da prata que seu pai, Otto Cordes, ganhou como jogador da seleção alemã de polo aquático em 1928 e 1932.

Edinanci Silva

judô

Quando eu tive a oportunidade de ir para um campeonato fora da Paraíba, de voar de avião, eu me senti a desbravadora dos céus. Fiquei olhando pela janela, tentando ver o que tinha na paisagem. Eu queria que isso se torna-se rotina na minha vida.”

Edinanci Silva

A trajetória das mulheres no judô brasileiro é permeada por proibições, resistências e conquistas. No meio de tudo isso, está Edinanci Silva, que saiu do interior da Paraíba para escrever seu nome na história olímpica do país. De origem pobre, começou a treinar por recomendação médica, devido a uma labirintite. Afeiçoou-se ao esporte e, contra a vontade da família, fugiu para São Paulo, decidida a investir no sonho de ser atleta. Herdeira das pioneiras do judô nacional, Edinanci conseguiu o feito de quatro participações em Olimpíadas. Detentora de dois ouros em Pan-Americanos, enfrentou um ambiente regido ainda por um olhar binário e, com sua trajetória, ajudou a consolidar a presença feminina nos tatames.

Edson Cavalcante

atletismo

No atletismo eu já viajei pra vários países. Já morei no Rio Grande do Norte, já morei em Brasília, atualmente moro em São Paulo. Foi uma migração muito louca.”

Edson Cavalcante

Filho de um soldado da borracha na Segunda Guerra Mundial, Edson Cavalcante nasceu no interior do Acre. No parto sem assistência, com falta de oxigênio, teve paralisia cerebral, o que prejudicou o movimento do braço e da perna direita . Só quando se mudou com a família para Rondônia, deu-se conta da deficiência. Lá descobriu o esporte. Começou no tênis de mesa e migrou para o atletismo, no qual conquistou bronze na Rio 2016. Ser atleta, vindo de onde veio, nunca foi fácil. Praticava em pista de terra. Como tantos, precisou correr o país em busca de treinamento. Vindo do seringal, pisou pela primeira vez numa pista de borracha em São Paulo, local em que hoje reside e, já veterano, consegue viver do esporte.

Fernando Meligeni

tênis

Eu entro dentro do meu corpo "Pra onde eu vou? Quem eu sou?" E eu me sinto brasileiro. Com todo carinho, com todo respeito e toda a admiração pela Argentina, pois é: eu quero jogar pelo Brasil. ”

Fernando Meligeni

Quis o destino que um dos melhores tenistas da história do Brasil nascesse na Argentina. Fernando Meligeni chegou ao Brasil com apenas quatro anos. Aqui cresceu e naturalizou-se brasileiro, a contragosto dos pais. Escolheu vestir a camisa verde e amarela. Num ambiente em que o atleta se torna símbolo da nação que representa, Meligeni era tratado como “argenta”, no Brasil, e “brazuca”, na Argentina, precisando provar a todo momento suas conexões com o país que abraçou. Ganhou ouro no Pan-Americano de Santo Domingo e alcançou o quarto lugar na Olimpíada de Atlanta, maior resultado de um tenista brasileiro em Jogos Olímpicos.

Juliano Fiori

rugby

Para acessar a transcrição, clique aqui.

Eu sempre me senti um estrangeiro. Na Inglaterra eu era meio latino, um brasileiro. E quando eu vinha para o Brasil, eu era um gringo. Quando eu chego na seleção é outra coisa. Você está representando um país, uma bandeira, cores, um povo."

Juliano Fiori

A noite escura trazida pela ditadura militar de 1964 obrigou muitos brasileiros a deixarem o país. Um deles se tornaria mais tarde pai do jogador de rugby Juliano Fiori. O atleta nasceu na Inglaterra, onde a família decidiu permanecer mesmo após a anistia. Dividindo seu tempo entre a vida acadêmica e o esporte, Juliano escolheu fazer o percurso inverso do pai. Migrou para o Brasil, de forma a integrar a seleção brasileira de rugby. Seu contato com a cultura daqui desde cedo facilitou a acolhida pelos colegas. Participou das Olimpíadas de 2016, vestindo a camisa verde-amarela. Nesse resgate das origens, fechava assim, uma espécie de ciclo.

Maurício Dumbo

futebol de 5

Para acessar o vídeo com audiodescrição,clique aqui.

Hoje em dia eu sou brasileiro, sou angolano. Sou africano, sou americano. Com bastante dificuldade, com bastante luta eu consegui, graças a Deus, me tornar campeão paralímpico e no Rio de Janeiro, na nossa casa. No Brasil”

Maurício Dumbo

Nascido numa Angola marcada pela guerra civil, Maurício Dumbo veio ao Brasil se libertar. Aos cinco anos, havia ficado cego, culpa de um sarampo tratado de forma caseira, diante da falta de médico. Aos 11, não sabia ler ou escrever. Corria pela rua atrás do som que provocavam as garrafas que ele chutava para lá e para cá. Nem imaginava que se tornaria atleta paralímpico do futebol de cinco. A mãe o convenceu a participar de um projeto de alfabetização no Brasil, que o afastou da família, mas lhe deu perspectiva. Aqui, formou-se advogado e descobriu o esporte que lhe rendeu medalha de ouro na Rio 2016. Antes dos Jogos, naturalizou-se brasileiro. Na pátria de coração, a construção de uma nova cidadania.