ser LGBTQIAP+

A comunidade LGBTQIAP+ vem construindo uma agenda de representatividade forte que se faz presente em diversas áreas como arte, educação, cultura e política. No esporte não poderia ser diferente. Cada vez mais as discussões em torno das orientações sexuais, identidades de gênero e intersexualidade tem crescido e fomentado o debate sobre a pluralidade de possibilidades de pessoas nas quadras, jogos e nas disputas de narrativas. Muitas das reivindicações políticas são pela legitimidade do ser e do amar, numa sociedade que ainda tem dificuldades para entender as diferenças.

Ser uma pessoa LGBTQIAP+ visível é uma forma de naturalizar a diversidade e tornar comum as experiências não hegemônicas. Ser um homem gay ou uma mulher lésbica assumidamente no esporte pode ser um ato de resistência, que leva visibilidade positiva para outras pessoas homossexuais. Assim como ser uma pessoa trans ou bissexual visível no esporte, pode fazer com que outras pessoas possam ter um sentimento de pertencimento e aproximação com a prática esportiva pelo elo da representação.

Cada vez mais as discussões em torno das orientações sexuais, identidades de gênero e intersexualidade tem crescido e fomentado o debate sobre a pluralidade de possibilidades de pessoas nas quadras, nos Jogos e nas disputas de narrativas.”

Ainda que não seja obrigatório nenhuma pessoa LGBTQIAP+ falar de sua sexualidade, existe a dimensão política por trás desse posicionamento. Assumir sua orientação sexual e identidade de gênero de maneira visível, pode ser caro no contexto esportivo, como em caso de pessoas intersexo e trans que podem ter seu gênero e sexo contestado e passar por testes de forma compulsória. Além das LGBTIfobias estruturais da sociedade.

Porém, o mais importante é perceber que as pessoas estão ocupando todos os lugares. Todes merecem arrasar!

Leonardo Morjan Britto Peçanha
Mestre em Ciências da Atividade Física pela UNIVERSO e Especialista em Gênero e Sexualidade pelo IMS UERJ

L ... Lésbicas
Mulheres que se relacionam com mulheres.
G ... Gays
Homens que se relacionam com homens.
B ... Bissexuais
Pessoas que se relacionam com mais de um gênero.
T ... Trans/travestis
Pessoas que ao nascer foram atribuídas ao gênero que não se identificam.
Q ... Queer
Termo utilizado para lidar com a diversidade sexual e de gênero. Pessoas trans não-binárias podem se identificar enquanto Q.
I ... Intersexo
Pessoas que possuem características biológicas e/ou fisiológicas como: cromossomos, genitais ou produção de hormônio de forma variada no organismo, fugindo do que culturalmente se entende especificamente de macho ou fêmea.
A ... Assexual
Pessoa que não sente atração sexual, podendo sentir atração afetiva ou não.
+ - ...
Para as demais orientações sexuais e identidades de gênero.

Fonte: Gomes, Jaqueline. Homofobia: identificar e prevenir. Rio De Janeiro: Metanoia, 2015.

Edênia Garcia

natação

Com o tempo, apesar de entrar tão nova no esporte eu comecei a entender quem é a Edênia, enquanto mulher a minha sexualidade. Eu fui me construindo com isso também. Fui me descobrindo. Entendendo que eu sou lésbica, dentro de um ambiente extremamente machista. Então, eu fui tentando entender qual o meu papel dentro daquele ambiente, como eu poderia, não me assumir, porque não gosto muito dessa palavra, mas como poderia ser dentro daquele ambiente que é tão difícil para nós mulheres e principalmente para o grupo LGBT.”

Edênia Garcia

Mulher, com deficiência, lésbica, vinda do interior do Ceará e de origem humilde. Edênia Garcia é uma desbravadora. Atleta paralímpica de natação, recebeu 17 medalhas em mundiais e três em Paralimpíadas. As piscinas entraram em sua vida aos sete anos, para auxiliar no tratamento da doença degenerativa que prejudica o movimento de seus braços e pernas. Foi a primeira atleta brasileira a conquistar um tricampeonato mundial, e é hoje a única tetracampeã. O esporte foi seu passaporte para a liberdade. A partir dele, construiu sua identidade e virou referência para uma geração de meninas e mulheres que busca viver bem com seu próprio corpo e afirma o direito e a coragem de ser e amar quem quiser.

Ian Matos

salto ornamental

Eu sou um atleta bem-sucedido e que tem uma orientação sexual diferente da maioria. Tem algum problema nisso? Nenhum. As pessoas precisam saber que é assim.”

Ian Matos

De origem marajoara, natural de Muaná no Pará, Ian Matos cresceu tomando banho de rio, mas foi nas piscinas que sedimentou sua vocação para os saltos ornamentais. Campeão brasileiro na categoria 3 metros, recebeu medalhas de bronze no Grand Prix dos EUA em 2012, no Festival Panamericano na Cidade do México em 2014 e no Sul-Americano em 2018. Num ato político, aos 24 anos, tornou pública sua homossexualidade. Em tempos de retrocessos, ele sabe a importância de se posicionar. Do seu posto de atleta bem-sucedido, usa sua representatividade e visibilidade no combate aos preconceitos. Faz sua parte, por um mundo que naturalize a diversidade e respeite o direito de ser e amar.

Isadora Cerullo

rugby

Tento viver minha vida muito abertamente. Eu tento ser visível com a Marjorie, porque eu sei que é importante a gente andar de mãos dadas na rua, não só porque a gente gosta, mas porque eu não deixo de ser eu quando piso fora da minha casa.”

Isadora Cerullo

A participação da equipe brasileira de rugby nos Jogos Olímpicos do Rio 2016 terminou sem medalhas. Isso não impediu que a capitã da seleção feminina ganhasse destaque mundial. Isadora Cerullo foi surpreendida com um pedido de casamento em campo. Nas Olimpíadas que anunciavam um novo mundo, a atleta disse sim para sua hoje esposa, escrevendo um capítulo na história da luta por equidade e pelo fim da discriminação nos esportes. Filha de brasileiros, nascida nos Estados Unidos, cursava biologia em Columbia quando descobriu o rugby. Os planos de migrar para a medicina foram interrompidos. No esporte, Izzy construiu identidade própria e abre caminho para as que vêm junto e depois dela.

Julia Vasconcelos

taekwondo

Hoje lido de outra forma com a questão da visibilidade, me coloco mais como LGBT e negra em minhas redes sociais. Quero que as pessoas me olhem e falem: 'Ela é LGBT e também é campeã'"

Julia Vasconcelos

Estar entre os melhores e decidir parar. Depois de representar o Brasil nas Olimpíadas do Rio 2016 e no Mundial de 2017, na Coreia do Sul, a lutadora de taekwondo Julia Vasconcelos anunciou sua aposentadoria. Aos 25 anos, tinha perdido o prazer em lutar. O esporte, que a levou tão alto, também havia lhe tirado muito. Enfrentou a depressão, distúrbios alimentares, abusos psicológicos e assédio moral por parte do treinador. Com 1,75m, sofria para adequar-se à categoria de 57 quilos. Mulher, negra e LGBT, Julia prefere não levantar bandeiras. Vive nos Estados Unidos, onde já trabalhou em lava-jato e na construção civil. Quis encerrar um ciclo e sentir-se livre para se reinventar.

Tuany Barbosa

atletismo

Mulher negra lésbica assumida, sabe do lugar social que ocupa na sociedade. Por expressar seu gênero de forma não esperada, ela desconstrói estereótipos no esporte e na vida.”

Leonardo M. B. Peçanha

De Tuany Siqueira para Tuany Barbosa.

O nome foi mais um elemento que ela transgrediu em sua carreira.

Nasceu e foi criada na comunidade Jacarezinho, onde conheceu o Judô aos 8 anos de idade por um projeto social.
É campeã brasileira e praticou judô olímpico por 15 anos. Aos 21 anos, durante uma luta no GP Brasil de Interclubes em 2014, contra a campeã olímpica e mundial Idalys Ortiz, sofreu uma lesão que tirou o movimento de sua perna direita do joelho para baixo e levou ao encerramento de sua carreira.

Em sua trajetória a superação sempre esteve presente. Após passar por períodos delicados devido ao acidente, com o apoio de sua família e amigos, Tuany volta aos esportes. No Movimento Paralímpico, ela se encontra novamente. Vai para São Paulo conhecer o Centro de Treinamento e se aproxima do arremesso de peso. Decide treinar a modalidade em 2017 e logo se torna campeã brasileira na classe F57.

Devido a sua atuação anterior no judô, hoje usa o nome Tuany Barbosa. Uma forma de ressignificar sua atual modalidade esportiva junto com seu nome, que antes era socialmente conhecida como Tuany Siqueira. Mulher, negra e lésbica assumida, sabe do lugar social que ocupa na sociedade. Por expressar seu gênero de forma não esperada, ela desconstrói estereótipos no esporte e na vida.

Walmes Rangel

atletismo

Para acessar a transcrição, clique aqui.

Quando eu abri a minha sexualidade, eu já me senti várias vezes muito mal com o comportamento de pessoas que subestimaram, me julgaram, criaram histórias que não existiam, sobre mim, entendeu? Então quando eu entrava para competir, tudo aquilo que eu sofria fora da pista eu levava para a pista e falava: agora vocês vão me pagar!”

Walmes Rangel

Num ambiente em que a diferença era vista como fraqueza e falha, Walmes Rangel foi o primeiro atleta olímpico brasileiro a se assumir gay. Sua orientação sexual tornou-se pública numa entrevista concedida por um colega do atletismo. Walmes sofreu bullying, ameaças e agressões. Perdeu patrocínios, mas ganhou a chance de ser ele mesmo. O garoto, que foi deixado em frente a uma igreja ao nascer, decidiu aos seis anos que chegaria a uma Olimpíada. Descoberto por um projeto social, realizou o sonho nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996. Mas, desiludido com o esporte, partiu para uma bem-sucedida carreira de cabeleireiro e maquiador, que o levou à Irlanda. Ser campeão não é estar no pódio, é vencer na vida.