ser diferente?

“Citius, Altius, Fortius!”, palavras em latim que traduzidas expressam o lema dos Jogos Olímpicos: mais rápido, mais alto, mais forte! Considerando essa máxima é quase justificável imaginarmos corpos altos, fortes e longilíneos ao desenharmos em nossas mentes um corpo atlético.

Essa dimensão nos apresenta a excelência existente nas mais variadas formas corporais. Desperta nossa atenção ao constatarmos que a alta habilidade, a beleza, a precisão, a reação rápida e correta dos gestos, estão presentes nos inúmeros e diversos formatos de corpos. Nos leva a perceber que tamanho, peso, cor, idade, ausência de membros ou a reduzida amplitude de movimento são peculiaridades que não impediram ou impedem a disputa e/ou o alcance do pódio, seja ele olímpico ou paralímpico.

Não são as capas de revistas que delimitam o padrão corporal. Essa referência, se é que existe, é fluida, é vasta, é dinâmica, não é binária, é diversa e valoriza as diferenças.”

“Espelho, espelho meu, existe alguém no mundo mais bonita/o do que eu?” A frase da rainha má é constante na vida de muitas/os desde tenra idade. Perceber-se diferente do padrão corporal socialmente determinado como ideal, magro e belo, pode trazer insatisfações com o próprio corpo que explicam porque o Brasil é um dos líderes na incidência de cirurgias plásticas com fins estéticos, porque tantas pessoas recorrem a dietas, desenvolvem transtornos alimentares e transtornos dismórficos.

Mas a diversidade de corpos é bem-vinda! É a diferença que garante as infinitas possiblidades de performar, seja nas quadras e pistas desportivas, seja no dia a dia, no vai e vem das cidades. Não são as capas de revistas que delimitam o padrão corporal. Essa referência, se é que existe, é fluida, é vasta, é dinâmica, não é binária, é diversa e valoriza as diferenças. É na variabilidade dos corpos que reside a surpresa, que reside a beleza, que reside você!

Adriana Inês de PaulaProfa. Adjunta do Depto. de Educação Física da UFPR
Arte: Vgorbash | Dreamstime.com
"A história única cria estereótipos. E o problema com os estereótipos não é que eles sejam mentira mas que sejam incompletos. Eles fazem uma história tornar-se a única história."
Chimamanda Adichie, escritora nigeriana



Daniel Bispo

boxe

Com a potência de seus golpes e a disciplina que o esporte exige, se esquivou das dificuldades impostas às modalidades pouco valorizadas no país"

Adriana Inês de Paula

Nocauteando inúmeros adversários

Daniel Bispo dos Santos Andrade Júnior fez história ao nocautear as adversidades e chegar perto de quebrar o jejum do Brasil, de medalhas olímpicas no boxe, que durava desde 1968. Nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, foi o brasileiro que mais se aproximou do pódio olímpico.

Daniel Bispo travou inúmeras batalhas além daquelas dentro do ringue em Atlanta. O boxe exige biótipos específicos para cada categoria. Daniel, peso pesado (até 91 kg), substituiu um atleta da categoria meio-pesado (até 81 kg) e portanto, precisou conciliar treinamento e preparação física intensa com a diminuição de ingestão calórica para o acelerado corte de peso.

Nem sempre percebemos ou tomamos conhecimento dessa luta contra a balança dos lutadores para alcançarem ou permanecerem no peso almejado. O biótipo de lutador forte, alto, musculoso e pesado, como vemos nos filmes, não faz jus a maioria dos competidores. Alterações na composição corporal, realizadas de maneira acelerada, podem trazer desde prejuízos à performance até risco importantes à saúde.

Daniel Bispo fez história em Atlanta ao chegar às quartas de final, mas foi eliminado a apenas uma vitória de garantir uma medalha olímpica. Com a potência de seus golpes e a disciplina que o esporte exige, se esquivou das dificuldades impostas às modalidades pouco valorizadas no país. Teve poucas oportunidades para participar de torneios preparatórios nacionais e internacionais, mas, com a excelência dos olímpicos, enfrentou seus muitos adversários, tornou-se profissional no ano seguinte e hoje, bombeiro, continua motivo de orgulho para nós brasileiros e brasileiras.

Darlan Romani

atletismo

Escolhi o arremesso de peso por ser uma prova de força. Como desde novo fui mais pesado, as provas de correr e saltar não eram muito meu forte"

Darlan Romani

Nascido em Concórdia, interior de Santa Catarina, Darlan Romani queria ser motorista de ônibus. Gostava de praticar esportes, desde que não tivesse que correr muito. Mais forte que os coleguinhas, foi convidado a praticar arremesso de peso aos 13 anos. Hoje, é recordista brasileiro, medalha de ouro nos últimos Jogos Pan-Americanos e quarto colocado nas Olimpíadas de Tóquio. Darlan foge do estereótipo esbelto do atleta. A preocupação com o corpo passa por não perder força e massa muscular. O sonho de menino evoluiu para que se tornasse dono de uma empresa de transportes. As oportunidades que o esporte lhe propiciou ele quer estender para outros, levando o atletismo a comunidades e escolas.

Evelyn Vieira

bocha paralímpica

É ser uma voz para as pessoas, mostrar que existem possibilidades além do que é colocado para elas, ser atleta para mim é isso, ser também um exemplo.”

Evelyn Vieira

“Deficiência não é sinônimo de incapacidade”. Dita por Evelyn Vieira de Oliveira, jogadora de bocha paralímpica e medalha de ouro nos Jogos do Rio, a frase ganha ainda mais sentido. De família simples, ela nasceu com uma síndrome rara, que causa atrofia dos membros superiores e inferiores. Nenhuma escola a aceitou, e ela foi alfabetizada pelos pais. Só na adolescência teve sua primeira cadeira de rodas. Convidada a conhecer os esportes paralímpicos por uma professora do Sesi, hoje, joga a bocha com capacete apropriado para seus arremessos com a cabeça. Ser atleta a ajudou a desconstruir barreiras e encontrar seu espaço. Foi seu caminho para tornar-se mulher independente, inspiração para tanta gente.

Fabiana Alvim

voleibol

No vôlei você precisa ser longilínea, né, grande e tal e eu era ‘pertilínea’, uma coisa meio pequenininha... rs”

Fabiana Alvim

Nascida no Rio, Fabi Alvim foi desestimulada a seguir o sonho de jogar vôlei por causa de sua estatura. Na modalidade em que tamanho parecia ser documento, fez-se gigante com 1,65m. Escreveu seu nome da história do esporte como líbero, função criada em 1998. A posição, focada na defesa, ajudou a democratizar o vôlei ao acolher maior diversidade de biotipos. Fabi hoje é bicampeã Olímpica e tida como a melhor líbero de todos os tempos. Após 20 anos de carreira, largou as quadras e, ao lado da esposa, partiu para a conquista do novo título - o de mãe. Depois de desbravar caminhos num ambiente tão dominado pelos homens, espera que a filha cresça num mundo em que lugar de mulher seja onde ela quiser.

Joana Neves

natação

Não tenho nem tamanho, quem dirá paciência”

Joana Neves

Joana Neves nasceu com acondroplasia, um tipo de nanismo. Sua mãe ouvia que a filha não viveria além dos 15 anos. Mas, aos 33, ela foi eleita a melhor nadadora paralímpica da década. Durante nove anos, teve que competir com atletas de muito mais mobilidade, devido a um erro de classificação. Nunca desanimou, apesar da dificuldade financeira. Hoje, mãe de uma menina, é dona de quatro medalhas paralímpicas. O esporte a fez perder a vergonha do corpo. Com seu 1,23 m, é uma gigante. Num país que lidera o ranking mundial de cirurgias estéticas, Joana Peixinha ressignificou sua diferença. Hoje, dá lições de empoderamento. No Instagram, escreveu: “Cuidado com o medo, ele adora roubar sonhos”.

Maria Elizabete

levantamento de peso

Para acessar a transcrição, clique aqui.

Fui para Sidney 2000 com 43 anos. Era chamada de "A vovó do peso", porque eu era a mulher mais velha na vila olímpica”

Maria Elisabete

Por décadas, mulheres foram proibidas de praticar esportes “incompatíveis” com sua “natureza”. O mito da fragilidade feminina Maria Elisabete desconstruiu antes de se tornar a primeira halterofilista do Brasil em Olimpíadas. Foi faxineira, lavadeira, corredora, jogadora de handebol. O preconceito que afasta mulheres de ambientes tradicionalmente reservados aos homens fez com que recusasse o primeiro convite para treinar levantamento de peso. Temia ficar “parecendo um homem”. Hoje Bete do Peso se orgulha de provar a força da mulher, combatendo machismo e homofobia. No esporte que ingressou aos 33 anos, conquistou títulos e horizontes. Agora prepara novos campeões e perpetua seu legado